OS
TEMPEROS DA VIDA
A
produção greco-turca de 2003, “O Tempero da VIDA”, roteirizada e dirigida por Tassos
Boulmetis é uma daquelas obras do cinema
que não ganharam badalação na mídia nem entraram no circuito comercial. No
entanto, têm conteúdo, são belas e inesquecíveis.
O filme conta a história de Fanis, um
grego que teve uma infância feliz em Istambul, na Turquia, marcada
principalmente pelos ensinamentos do seu avô – dono de uma loja de especiarias,
cheio de sapiência, que costumava ensinar sobre astronomia, amor e relações
humanas a partir da culinária e da magia dos temperos. Fanis, claro, viu a sua
existência ser impregnada por aquele verdadeiro filósofo e seus ensinamentos.
O argumento do filme veio a trazer a
confirmação daquilo que eu ja experimentei muitas vezes. A ligação da vida com
seus temperos. A vida sem sabor, amargos ou doces, nao é realmente vida!
A nossa memoria olfativa nos faz ligar
aromas a situaçoes do passado e presente. Assim tambem a nossa memoria palativa
nos traz doces ou amargas lembranças!
Interessante é que a vida esta cheia de
aromas e sabores que, em algumas fraçoes de segundos, nos fazem viajar no
tempo.
O cheiro do sabonete “Phebo” me conduz ao final de minha adolescencia
quando estive por uma temporada em Belém do Para, misto de viagem missionaria e
aventura teatral. A vida naquela é poca era docemente perfumada pelos ideais!
O sabor inesquecivel de um doce de mamao, uma
das (poucas!) especialidades culinarias de minha mae, ou o sabor simples de um pastel com caldo de cana
(um paulista entendera isso) podera parecer proletario demais para alguem, mas
para quem se distanciou de sua terra
torna-se uma razao de saudades. A saudade é um tempero agri-doce!
Apaixonado pelas letras fui apresentado ao
Livro dos livros e descobri que a poesia não era profana e que o amor era o
mais sacro dos sentimentos. O banquete de Salomão, com tortas de uvas para
restaurar as forças, maçãs para revigorar, e a presença de aromaticos e suaves
perfumes me despertou para a “exoticidade” da vida. A vida é mais do que a rotina massacrante, a vida é poesia, viagem, sonho!
O cheiro do café torrado, moido na hora, na padaria da esquina pode nos fazer imaginar que a vida é simples,“muito
simples para quem esta cansado e precisa marchar”, citando o estadista e
poeta angolano Agostinho Neto. A simplicidade é um tempero essencial, sem ela a
vida se torna complexa e “destemperada”.
Quantos outros aromas! Quantos outros
sabores nos apresentam a vida!
Nao esquecamos que tambem o amargo do
limao que, adocicando, transformamos em
limonada faz parte da feira que se coloca diante de nos a cada dia. Muitas
vezes, como ocorreu com Noemi, as decepçoes
da vida nos tornam amargos , mas assim como as aguas de Mara se tornaram doces
podemos ter a certeza de que o Senhor dos temperos, o Mestre da cozinha
existencial sabera dar o sentido devido ao sabor.
Da terra africana escrevi que “perfume pela manhã no decorrer do dia se
torna em odor e gotas de suor se tornam em sabor...” , não preciso explicar
isso para quem ja viveu ou visitou Africa!
Ainda reservarei mais tempo aos banquetes
da vida, ainda me deitarei em seu divã. Enquanto o nardo exalara o seu perfume,
apreciarei o sabor exotico do suco de romã.
Depois, descerei a jardins de nogueiras e brindarei, com uma taça de vinho
aromatizado, diante da morte: Um brinde a vida!
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